… assim como eu parei tudo para escrever essa leve resenha.
A extinta banda Seamus tem história. E como tem. Fez parte de muitos contextos das cenas alternativas de São Paulo, Taubaté e Mogi das Cruzes. Junto com La Carne, era a banda que eu depositava - injustamente - a responsabilidade do "enquanto eles continuarem na ativa, ainda há esperança".
Perdi a conta de quantos shows já vi do Seamus e, mesmo assim, nunca negava em ver de novo, e de novo, e de novo. Sempre era uma experiência única. E, se não era única, era algo que valia sentir mais uma vez.
Já sabia decor as músicas quando o interminável parto deu à luz ao ótimo CD The Sounds Of The City You Love, em 2010. Mesmo assim, as músicas que saiam das caixas de som soavam frescas, novas. E é exatamente essa a sensação ao ouvir RED, o novo EP da banda, que pode ser ouvido neste link. A diferença é a nostalgia da banda não existir mais.
RED tem quatro músicas, já velhas conhecidas do público, gravadas em uma ótima qualidade. Uma pena esse material chegar em um momento de nostalgia tão grande, onde, com certeza, a emoção fala mais alto que a crítica. Cada música que passa, sente-se a emoção dos shows, das guitarras barulhentas no ponto exato, dos backings que te fazem cantar junto...
Seamus se assemelha com Bob Dylan no álbum Desire: faz músicas enormes (Red tem 6:05 e, a menor, Ambush in the Night, 3:43) e que não cansam nunca e deixam o gosto de quero mais.
Infelizmente, hoje, esse gosto de quero mais é amargo.
RED no repeat a tarde toda.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Crítica - Guerrilha Gerador
O documentário Guerrilha Gerador, feito pelo hierofante Danilo Sevali, exalta com maestria a essência do "Faça Você Mesmo", mostrando que essa postura vai além do que ser apenas "contra o sistema".
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| Foto: Paulo Borgia |
O filme, de 60 minutos de duração e que concorre (ou concorreu) como documentário musical pelo In-Edit, motra duas bandas, INI e Hierofante Púrpura, invadindo, digamos assim, as Viradas Culturais do estado de São Paulo, utilizando dois geradores movidos à gasolina para ligar os equipamentos e as ruas e calçadas como palco.
As entrevistas, cenas, músicas, reação de público, bandas e, acreditem, policiais, esclarecem cada vez mais o real objetivo da Guerrilha Gerador, que, como dito, não é combater o sistema, mas sim, tornar-se independente dele.
As imagens, que às vezes parecem ter exageros de vazio e repetições, nada mais fazem do que colocar o público dentro de uma noite de invasão da Guerrilha, que passa a sentir, junto com as bandas, o frio na barriga de estar fazendo algo, digamos assim, ilegal, a angústia de esperar, achar o local certo, da incerteza se vai rolar ou não, se serão censurados pela polícia que, por muitas vezes, não entendia em absoluto o que presenciava (e é da natureza humana temer aquilo que não se entende).
Curiosamente é colocado no documentário a vez em que a Guerrilha não tocou, na Virada de São José dos Campos, por decisão das próprias bandas. Isso é emblemático e mostra o quão orgânico e humano é o movimento. Outro momento que prova isso é quando tocam, praticamente isolados, na Pedreira, para eles mesmos. Mostra como o objetivo de tudo nada mais é que a própria música.
Curiosamente é colocado no documentário a vez em que a Guerrilha não tocou, na Virada de São José dos Campos, por decisão das próprias bandas. Isso é emblemático e mostra o quão orgânico e humano é o movimento. Outro momento que prova isso é quando tocam, praticamente isolados, na Pedreira, para eles mesmos. Mostra como o objetivo de tudo nada mais é que a própria música.
A Guerilha Gerador (o documentário e a ação) é algo poderoso. Como dito pelo Elmo Odorizi, ela pode ser o que o mp3 foi para a indústria da música. Se as bandas perceberem que não precisam se submeter a abusivas condições de muitas casas noturnas, de eventos viciados e pré-fabricados, em que se tocam sempre os mesmos artistas, tudo pode mudar. A Guerrilha não é violenta nem usa máscaras e molotov, mas é viceral, em suas notas, em suas mensagens, que, de longe, não se torna uma evangelização, mas sim, apenas rock'n roll; o que, no fundo, é muito mais perigoso... pelo menos para quem gosta de se manter no controle.
terça-feira, 21 de maio de 2013
Conheça o Grupo de Estudos Filosofia do Design, com Marcos Beccari
Junte as dúvidas sobre o que é filosofia com as inquietações do design. Pronto, está aí o que vem procurando esclarecer (e, tomara, nunca encontrando conclusões definitivas - ou que, ao menos, deixem um pingo de dúvida para continuar debatendo) o Grupo de Estudos Filosofia do Design, encabeçado por Marcos Beccari, do Anticast (um dos podcasts mais ouvidos do mundo, de acordo com o próprio), do blog Filosofia do Design e, por fim, um dos autores do recém-lançado livro Existe Design?.
Em encontros que ocorrem quinzenalmente aos sábados na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), o Grupo reúne desde profissionais da área de comunicação e da área acadêmica, estudantes e profissionais de Design e um médico urologista (sim, isso. E, acredite, com colocações extremamente pontuais, que agregam, e muito, no debate).
Debate, diálogo, sim, aula, não. Por mais que seja claramente liderado pelo Beccari, o Grupo tem um espaço plural, sem hierarquias, onde todos perguntam, sugerem, discordam e aprendem.
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| Parece aula, mas não é. Foto: Renato Oliveira |
No encontro mais recente, que aconteceu neste sábado, 18, aproveitei para conversar com o Beccari. Afinal, as minhas inquietações ultrapassavam o que era discutido no grupo. Por que, raios, aqueles estudantes estavam ali? E os profissionais? Então não há debate nas salas de aula? A filosofia de olho no design não está na pauta dos professores?
"É interessante porque isso faz com que o grupo acabe funcionando como um Narcóticos Anônimos, que é uma coisa muito útil, eu diria. A gente vê isso no Clube da Luta. Para o cara conseguir dormir, para você conseguir dormir, precisa participar de vários 'narcóticos anônimos', escutar histórias, se comover, chorar… E chegamos muito perto disso no mercado de trabalho. O designer não consegue mais dormir", brinca Beccari e faz um paralelo.
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| Grupo de Estudo Filosofia do Design. Foto: Renato Oliveira |
Se interessou? Ouça a entrevista na íntegra em que o Beccari explica, ou tenta explicar, o porquê de tantas inquietações. E, claro, o porquê de se discutir a filosofia do design em um grupo de estudos.
Ouça também a entrevista com três estudantes de Design Gráfico, participantes do Grupo: Thaís, Danilo e Renato, respectivamente.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Uma história de amor e fúria
Tive o prazer de estar presente na pré-estreia da animação nacional Um História da Amor e Fúria, graças ao convite de meu amigo André Nakao, que participou da produção do filme. Eu havia visto o trailer e confesso que o que chamara a atenção, a princípio, foi o fato de ser um desenho brasileiro com participação de Selton Mello, Camila Pitanga e Rodrigo Santoro.Sendo esses fatores isca ou não, acontece que o filme pega de jeito, de forma tensa e envolvente.
Ele é resultado de mais de cinco anos de produção, roteirizado e dirigido por Luiz Bolognesi (Bicho de Sete Cabeças, Chega de Saudade, Terra Vermelha, As Melhores Coisas do Mundo) e conta, além dos já citados atores, com trilha sonora do Instituto.
Ficção, mito e realidade se cruzam com grande harmonia, graças a estudos históricos e antropológicos. E, assim como o personagem de Selton Mello, Bolognesi resolveu ficar ao lado dos mais injustiçados, afinal, "seus heróis não viraram estátuas".
O futuro mostra um Rio de Janeiro como 1984 - ou pior -, com escassez de água, monopolizada pela irônica empresa Aquabrás, além de possuir uma segurança totalmente privatizada.
O amor e a fúria se confundem. Não se sabe se o protagonista é guiado realmente pela paixão ou pela sua sina da imortalidade que o possibilita "lutar pelo seu povo", missão que recebe em troca do dom. Talvez os dois. A própria Janaína, mesmo reencarnada em épocas diferentes, dá continuidade a suas batalhas. A imortalidade parece ser somente um ponto de vista.
Bolognesi aproveitou os características da animação, realizando o que não seria possível em live action. Guerras entre centenas de índios, franceses e portugueses, uma cidade no mais extremo sentido da palavra futurista, com carros voadores e mais. Tudo isso, em uma boa mescla de 2D e cenários em 3D.
"Viver sem conhecer o passado é como andar no escuro". O desenho é sério, adulto, tenso e promete marcar época na animação nacional. Traz, com maestria, a união da história do Brasil com um romance consistente, além de prever um futuro apocalíptico, mas totalmente sensato. Essas características acabam por tornar o filme em algo completo, com entretenimento, contexto, emoção e até um teor sustentável e revolucionário.
Ele é resultado de mais de cinco anos de produção, roteirizado e dirigido por Luiz Bolognesi (Bicho de Sete Cabeças, Chega de Saudade, Terra Vermelha, As Melhores Coisas do Mundo) e conta, além dos já citados atores, com trilha sonora do Instituto.
História se passa na Ditadura... Foto: divulgação
O filme conta a história do Brasil e vai além, passando por quatro momentos distintos: colonização, escravidão, ditadura e futuro. O protagonista, imortal e presente em todas essas épocas, é guiado por seu amor a Janaína (e suas encarnações) e por diversas batalhas, sempre estando no lado dos mais fracos.
Ficção, mito e realidade se cruzam com grande harmonia, graças a estudos históricos e antropológicos. E, assim como o personagem de Selton Mello, Bolognesi resolveu ficar ao lado dos mais injustiçados, afinal, "seus heróis não viraram estátuas".
O futuro mostra um Rio de Janeiro como 1984 - ou pior -, com escassez de água, monopolizada pela irônica empresa Aquabrás, além de possuir uma segurança totalmente privatizada.
O amor e a fúria se confundem. Não se sabe se o protagonista é guiado realmente pela paixão ou pela sua sina da imortalidade que o possibilita "lutar pelo seu povo", missão que recebe em troca do dom. Talvez os dois. A própria Janaína, mesmo reencarnada em épocas diferentes, dá continuidade a suas batalhas. A imortalidade parece ser somente um ponto de vista.
... e também no fututo. Foto: Divulgação
Bolognesi aproveitou os características da animação, realizando o que não seria possível em live action. Guerras entre centenas de índios, franceses e portugueses, uma cidade no mais extremo sentido da palavra futurista, com carros voadores e mais. Tudo isso, em uma boa mescla de 2D e cenários em 3D.
"Viver sem conhecer o passado é como andar no escuro". O desenho é sério, adulto, tenso e promete marcar época na animação nacional. Traz, com maestria, a união da história do Brasil com um romance consistente, além de prever um futuro apocalíptico, mas totalmente sensato. Essas características acabam por tornar o filme em algo completo, com entretenimento, contexto, emoção e até um teor sustentável e revolucionário.
O filme estreia nesta sexta, 5 de abril.
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